28 de out de 2010

Recebemos essa crônica do Fernando Sabino através do amigo Rui Loyola

Os homens, incidentemente, se dividem também em duas categorias: os que são
e os que não são de canivete.

Eu, por mim, confesso que sou homem de canivete. Meu pai também era: tinha
na gaveta da escrivaninha um canivete sempre à mão, um canivetinho alemão
com inscriçõesd e propaganda da Bayer. Não se tratava de arma de agressão,
mas, ao contrário, destinava-se, como todo canivete, aos fins mais pacíficos
que se pode imaginar: fazer ponta num lápis, descascar ma laranja, limpar as
unhas.

É, aliás, o que sucede com todos os homens arrolados nesta categoria a que
honrosamente me incluo – os homens de canivete: são pessoas de boa paz e que
só lançariam mão dele como arma defensiva quando se fizesse absolutamente
necessário.

Alegria de criança que não abandona o homem feito: a de ter um canivete. Era
de se ver a excitação de com que meu filho de dez anos me pediu que não
deixasse de lhe comprar um na Alemanha. È perigoso – advertem os mais
velhos, cautelosos – cautela que não resiste à minha convicção de que o
menino saberá lidar com ele como é mister, pois tudo faz crer que virá a
ser, como o pai, um homem de canivete.

Os mineiros geralmente são. Quem descobriu isso, penso, foi o Otto, que não
deixa de sâ-lo, ainda que de chaveiro e, certamente, por atavismo – pois me
lembro da primeira pergunta qe lhe fez seu pai ao chegar um dia ao Rio:

- Você sabe onde fica uma boa cutelaria?

Sempre fui um grande freqüentador de cutelarias. Quando o poeta Emílio Moura
aparece pelo Rio, não deixo de acompanhá-lo a uma dessas casas para olhar
uns canivetes – pois se trata de um dos mais autênticos homens de canivete
que eu conheço, e dos de fumo-de-rolo. Entre meus amigos mais chegados,
embora nem todos o confessem, muitos fazem parte dessa estranha confraria.
Paulo Mendes Campos não esqueceu de recomendar-me determinada marcad e
canivete ao saber de minha viagem – e, se bem me lembro, seu pai é um dos
infalíveis portadores de canivete que se tem notícia. Rubem Braga também
deixou-se denunciar numa esplêndida crônica, “A Herança”, que pode ser lida
em *Borboleta Amarela*, a respeito de um irmão que abria mão de tudo, mas
reclamava do outro a posse de um canivete.

Alguns continuam sendo homens de canivete, mesmo que hajam perdido o seu
ainda na infância. Aliás, os homens de canivete vivem a perdê-lo, não sei se
pelo prazer de adquirir outro. Para identificá-lo, basta estender a mão e
pedir: me empresta aí o seu canivete. Se se tratar de alguém que o seja,
logo levará naturalmente a mão ao bolso e retirará o seu canivete. Foi o que
fez Murilo Rubião, por exemplo, que é outro: ao chegar da Espanha, a
primeira coisa que me exibiu foi seu belo canivete, adquirido em Sevilha.

Para terminar, digo que não há desdouro algum em não ser homem de canivete.
Há homens de ferramenta, de isqueiro, de chaveiro e até de tesourinha.
Graciliano Ramos não era homem de navalha? Homens de revólver é que não são
uma categoria das que mais admiro: até parece que não são homens, para
precisar de uma proteção que lhes poderia propiciar, em caso de necessidade,
um simples canivete.

(*in **As melhores crônicas de Fernando Sabino**, *Rio de Janeiro, Record,
1986 - pp. 165-7)

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